
1. O Contexto: Quando o Problema Parece Apenas Informativo
Em análise de requisitos, muitos cenários chegam disfarçados de algo simples. Neste caso, o pedido do stakeholder era direto: verificar por que uma das integrações não estava funcionando como esperado e explicar o ocorrido.
O fluxo era conhecido. O usuário realizava um pedido pela nossa plataforma, mas a responsabilidade real pelo processamento sempre foi do sistema de destino. No passado, existiam validações que justificavam nossa atuação como intermediários. Essas validações foram removidas ao longo do tempo, tornaram-se desnecessárias, mas o fluxo permaneceu ativo — muito mais por hábito do usuário do que por necessidade de negócio.
Naquela semana, o sistema de destino passou a negar pedidos por uma restrição temporal. Nós apenas repassávamos a solicitação, sem qualquer validação adicional. O problema surgiu quando a mensagem retornada pela API foi exibida ao usuário de forma bruta, inadequada e fora de contexto. O objetivo aparente era simples: informar corretamente o que havia acontecido.
À primeira vista, parecia um ajuste trivial: tratar a mensagem e seguir adiante.
2. O Dilema: A Armadilha da Solução Óbvia
O primeiro sinal de risco apareceu cedo. Aquela negativa era inédita — o usuário nunca havia recebido um pedido recusado. Não sabíamos como isso seria percebido, nem como o suporte lidaria com a situação. Havia risco de aumento de chamados, insatisfação e até perda de cliente.
A armadilha clássica — comum em analistas iniciantes — era assumir que bastava atender o pedido explícito. “Vamos tratar a mensagem e pronto.” Esse raciocínio ignora algo essencial na engenharia de requisitos: o pedido raramente representa o requisito real.
O dilema técnico se apresentou em dois caminhos claros:
- Caminho A: tratar a mensagem de retorno, torná-la compreensível e manter o fluxo como estava.
- Caminho B: ampliar a análise, compreender todos os stakeholders impactados (usuário, suporte, negócio e sistema de destino) e questionar se aquela integração ainda fazia sentido.
A pergunta estratégica que orientou a decisão foi simples, mas poderosa:
estamos resolvendo a causa do problema ou apenas suavizando o sintoma?
3. A Decisão e o Framework: Análise de Propósito do Requisito
A decisão foi guiada por um princípio central da análise de requisitos: toda funcionalidade precisa ter um propósito claro e atual.
O framework aplicado foi uma Análise de Propósito, baseada em três perguntas:
- Qual era a função original dessa integração?
- Essa função ainda existe hoje?
- O custo de mantê-la é menor que o valor que ela entrega?
As respostas foram convergentes. A integração existia para validar condições que já não eram mais necessárias. Na prática, nossa plataforma havia se tornado apenas um intermediário burocrático, sem valor agregado real.
Manter esse fluxo significava manter código obsoleto, pontos de falha desnecessários, retrabalho para suporte e confusão para o usuário sobre quem realmente era responsável pelo pedido. Tratar a mensagem seria apenas uma maquiagem em algo inútil.
A decisão estratégica foi clara: eliminar a integração.
4. Execução e Contenção de Risco: Matar sem Quebrar
Eliminar uma funcionalidade é sempre mais arriscado do que ajustá-la. O pior cenário possível não era técnico, mas comportamental. O usuário estava habituado a realizar pedidos na nossa plataforma. Alterar esse fluxo poderia gerar confusão, frustração e abandono.
Por isso, a execução exigiu um plano rigoroso de contenção de risco:
- mapeamento detalhado do processo existente antes da mudança;
- alinhamento com suporte para orientar corretamente os usuários;
- comunicação com marketing para ajustar expectativas;
- validação com a liderança da empresa;
- alinhamento com o sistema de destino para absorver totalmente o fluxo.
O objetivo era claro: simplificar o processo sem gerar sensação de perda de valor.
Além disso, havia um risco técnico silencioso. Funcionalidades obsoletas tendem a se tornar vulnerabilidades. Recebem menos atenção, menos testes e menos manutenção. Removê-las é também uma decisão de segurança e sustentabilidade do produto.
5. Conclusão com o Aprendizado Estratégico
A principal lição deste case é direta: nem sempre o que o stakeholder pede é o que ele realmente precisa. Em análise de requisitos, o pedido explícito é apenas o ponto de partida.
Tratar apenas a mensagem teria resolvido o incômodo imediato, mas manteria um processo inútil ativo. A verdadeira necessidade era eliminar uma funcionalidade que já havia cumprido seu papel no ciclo de vida do produto.
O padrão que se repete nesses cenários é claro: requisitos obsoletos não desaparecem sozinhos. Eles permanecem até que alguém questione seu propósito. Quando isso não acontece, o custo aparece depois em forma de retrabalho, aumento de suporte e perda de clareza do produto.
Pensar requisitos não é um atraso. É economia. Requisitos bem analisados reduzem desperdício, simplificam sistemas e protegem o negócio no longo prazo.